sábado, 4 de abril de 2009

Política em banho maria

Com oito votos, os minguados, porém queridos leitores desse blog, escolheram “desinteresse político” como um tema que gostariam de ver abordado pelo "Tomada de Opinião". Na minha modesta opinião, para se compreender o momento em que a política deixou de despertar interesse, debates e até bate-bocas, é necessário analisar a cronologia a partir dos tempos de ditadura. Pois eu creio que a falta de motivação atual se trata de uma baixa, mas longe de ser algo definitivo.



De 60 a 80, o grito – mesmo que abafado – era por democracia. No começo da década seguinte, pelas ”Diretas Já”, muitos sentiram a ebulição política correr pelas veias. Anos depois, com a esquerda esperançosa, nem Lula nem Brisola assumiram a faixa de presidente, mas mesmo com Collor eleito, o espírito da vida política seguia ativo.



Colorido, o país chutou Collor de Brasília, em uma época marcada por marchas, indignação e, por que não?, esperança de dias melhores. Depois veio a vitória de FHC em cima de Lula. Mesmo sem possuir um plano de governo ligado à esquerda, Fernando Henrique não podia ser rotulado de direita, pois não era como Maluf, Quércia e outros típicos, afinal como tucano, ele não estava nem à direita nem à esquerda: mas sim em cima do muro.


Montado em seu diploma de sociólogo, FHC implantou uma moeda estável, e junto com Covas, Serra, Sérgio Motta, Malan e companhia, privatizou o país. Afinal, segundo ideologia partidária, o que o Estado não podia oferecer ao povo com qualidade, a iniciativa privada seria capaz. Capitalizando até riquezas minerais.



Neste momento o cenário político nacional apresentava a seguinte conjuntura: o governo federal tucano, o nordeste ainda com os caciques, como Sarney, ACM e outros jacarés ainda com a boca aberta, e o PT procurando não deixar morrer a esperança de ver o metalúrgico, alvo de preconceitos, e figura importante na redemocratização nacional, assumir o cargo de presidente do país.



Como oposição, a esquerda se estruturava. Movimentos como o dos Sem-terras seguiam uma linha ideológica e ética. Sindicatos ecoavam o pedido dos trabalhadores. Estudantes faziam greves por um melhor ensino superior. O debate pelo pagamento ou não da dívida externa estava presente em qualquer bate papo politizado. E por mais que divergências ocorressem, um pensamento era mais que consenso. Lula precisava virar presidente. O povo tinha que fazer parte do governo. Com Lula, a participação popular seria mais latente.


Assim, em 2002, com cerca de 53 milhões de votos Luís Ignácio Lula da Silva foi eleito presidente do Brasil, com discurso que afirmava que “nunca mais ninguém poderia ousar duvidar da classe trabalhadora”. Abraçado em minha mãe, com a vista embaçada, junto com milhares de pessoas, vi em plena Avenida Paulista o sonho de milhões se tornar realidade.

Demorei a acreditar que toda a batalha que escutei desde muito novo havia sido vencida.
Realizados, esquerdistas passaram a vislumbrar dias melhores. Eis que a vida política desse país nunca mais foi a mesma. O calor dos debates reduziu, a ânsia por confrontar argumentos cessou. As manifestações perderam o sentido de si, afinal quem poderia alterar a ordem, estava lá, com o respaldo dos que levantavam cartazes. Ao contrário do esperado, a participação do povo diminuiu.


A ambição de uns e a aproximação de pessoas que de nada colaboraram com os anos de história do PT, fez milhares de petistas se rotularem lulistas. Com vergonha do partido e orgulho de seu presidente, líder e figura das mais importantes na história política deste país.


O governo em si não é assunto para este texto, e sim o desinteresse político vivido nesse período da história. Após décadas de divergências calorosas, a política estagnou. Os jovens revolucionários naturalmente envelheceram. Seus filhos seguem na busca do que lutar. Batalhar contra o desinteresse me parece uma boa. Debata sempre, nunca fique em cima do muro.

10 comentários:

Unknown disse...

Critique-me se estiver dizendo algo sem nexo. É difícil de entender tamanha presença e influência do PMDB no governo Lula. José Sarney, Fernando Collor, Michel Temer... Não sei se estou correto, mas o PT não estaria perdendo um pouco de sua força interna?


Sei que o texto não focado apenas no PT, mas sim na política como um todo. Porém, sempre que penso algo relacionado ao partido o tomadadeopiniao vem em minha mente.

Isabela Rios disse...

O desinteresse atual dos jovens não se restringe a política, mas a todas as causas sociais, na minha opinião pelas mesmas razões. Além dos motivos citados no texto será que até o fato de os partidos políticos terem cada vez menos ideologias e mais centralismos, e os políticos darem cada vez mais repostas vagas e demagogas também não contribui com esse desinteresse? A geração de "revolucionários" cresceu e o que foi ensinado aos seus filhos é que ás vezes o indivíduo tem maior importância do que o estado. Na junção de pensamentos desse tipo com a tecnologia da nossa geração, as condições de vida e a educação que tem sido oferecida, como jovens teriam conhecimentos o suficiente e se dariam ao trabalho de entender mais sobre política, e indo além, se dariam ao trabalho de se esforçar para obter mudanças a exemplo de seus pais? Será que sobrará para nossos filhos batalhar contra o desinteresse?

Ps: Não me refiro a nossa geração INTEIRA.. deveriam existir mais blogs como o seu.. gostei!

Bjinhussssssss =*

Mayra Raizi disse...

eu mereço

Tuca Veiga disse...

Caro Felipe, difícil de entender não é, afinal todos sabem que (infelizmente e teoricamente) para se governar o país ecessita-se da colaboração da maior bancada da cãmara e senado, a peemedebista. Porém, mesmo tendo como entender, realmente é muito triste ver tal aliança. Mas os problemas do PT passam longe de parar por aí.

Cara Isa, se você der uma lida nos demais textos do blog, verá que essa impotência demostrada por nós é criticada em todos eles. Assim sendo, sabemos que precisamos de um "chacoalhão". Comece com seus amigos mais próximos, depois passe para debates com qualquer pessoa que aparecer. haha. E não colabore com a revista Veja, câncer do cenário político e jornalístico brasileiro.

Cara Mayra, você ME merece.

Guilherme Reis disse...

Caros, acredito que "gerações revolucionárias" surgem após um período de estagnação. Assim, confio plenamente que nossos netos encontrarão um mundo um pouco diferente, que fará com que eles possam lutar. Nossa geração, por mais que seja desinteressada em sua grande maioria, não encontrou um cenário propício para lutar. Nos anos 60, usar um biquini já era uma revolução. Hoje, nem andar nu é uma revolução. Parece que tudo é banal, até a violência e a própria vida foram banalizadas. Acho também que as pessoas que lutaram em nosso país, na época da ditadura por exemplo, chegaram ao poder e se acomodaram. Não investiram nas próximas gerações. Se preocuparam apenas em manter o poder e se dar bem, e não em manter um debate ativo. Isso prova que as grandes mudanças, pelo menos aqui, foram causadas por uma minoria e a grande maioria continua alheia. Acho que me alonguei demais, vou parar por aqui e comentar no blog umpapoaberto.blogspot.com, onde você pode encontrar tudo sobre cultura!!!
Abraço

Camila Zanforlin disse...

ah eu sou um pouco desinteressada sim, mas tenho vontade de me informar mais sobre política para entender melhor e fazer as escolhas certas para o meu país!!

Clarice disse...

tô gostando desse blog, viu, tuca? acho q vou aparecer mais por aqui, porque confesso que de política não entendo lhufas... uma tristesa...

Tuca Veiga disse...

Fico feliz com a participação do pessoal. Achei ótima a afirmação do gui em que ele diz que usar biquini já chegou a ser uma revolução e hj nem andar nu é um protesto.

Para as meninas que falaram que pouco sabem de política, uma boa é visitar esse blog CONVERSA AFIADA que coloco ao lado. É do Paulo Henriqeu Amorim e, por n ter rabo preso c ninguém, ele fala coisas muito interessantes.

b.s. disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
b.s. disse...

Acho que enxergar essa apatia na sociedade é o princípio pra buscar algo novo. Não quero que as próximas gerações cheguem ao mundo sem rumo como eu cheguei. Acho fundamental criticar, escrever, debater sobre a política e, mais importante ainda, fazer e perceber que você tem potencial para a mudança. A juventude sempre foi vanguarda em todas essas fases que você citou. E agora quem é a juventude? A única que se salva acho que é a pequena classe universitária, que tem acesso a um certo nível intelectual, um pouco mais de disponibilidade de tempo (se comparar a um trabalhador chefe de família) e ainda a que tem mais ousadia e coragem. Somos nós. A responsabilidade do que serão os próximos 10 anos, no mínimo, é nossa, porque fizemos ou não o que precisava ser feito.

Ps.: Apenas uma opinião a mais pra entrar nesse debate! =]